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      A sedução que a epopéia exerce sobre Haroldo de Campos não pára em Signância quase céu. É o que se vê no Odisseu reinventado em Finismundo, a última viagem, poema recentemente reeditado. O título, que alude ao Finnaganswake de Joyce, redesperta Odisseu para o nosso convívio. A idéia de fazê-lo morrer no mar lhe veio da Divina Comédia. Obediente à técnica haroldiana de inverter a ordem no processo criativo, comecemos pela segunda parte, consagrada ao Ulisses urbano, sujeito às leis do trânsito, ao brilho instantâneo do fósforo, às banalidades cotidianas. O Ulisses urbano de Haroldo é menos ambicioso que o Ulisses de Joyce. Para o Ulisses de Haroldo, preso a ninharias nem périplo pela cidade há. Sem ousar aventurar-se à busca da última tule, contenta-se com a penúltima, a em que o conforto o confina. Do Éden basta-lhe um prosaico cartão postal. Comparável ao escravo rebelde da caverna platônica, o Odisseu urbano quebra as cadeias do conforto para uma aventura inusitada, uma viagem que o leva para além das vedadas colunas de Hércules rumo ao paraíso terrestre além do Oceano.

      Nas veias deste Odisseu corre o sangue de Colombo. Como o genovês, o Ulisses de Haroldo morre sem encontrar o paraíso sonhado. Moderna é a busca do infinito, moderno é o mar que sepulta Odisseu sem outra lembrança que o sulco rasgado nas ondas pela quilha. O canto das sereias reinterpretado não pára de soar aos ouvidos de Ulisses. Comparado ao das sereias, canto nenhum é o último. Lar e velhice tranqüila são laços que prendem o aventureiro ao mastro. Rompidas as cadeias, o último som é o das sereias. Triunfa o canto delas confundido com as ondas do mar.

      A exemplo do Um lance de dados mallarmaico, o poema de Haroldo traz as marcas do naufrágio. Finismundo reúne fragmentos de cantos estilhaçados. O nada devora os elos construídos outrora pelas rigorosos hexâmetros homéricos.

      Galáxias nasce do sulco que a nau de Ulisses abre no peito de Poséidon, isto é, no corpo do mar. Quando Haroldo de Campos publicou Finismundo, Galáxias, obra começada em 1963, já se encontrava em avançado estágio de elaboração. Diz Haroldo que Galáxias começou como insinuação épica e terminou como insinuação epifânica. Na verdade, em Galáxias, mais do que em Finismundo, com Ulisses naufraga a epopéia: memória, trama, personagens, mitos, versos, cantos. Emerge um livro de ensaios, o escrever sobre a arte de escrever, a epifania do nada. Em lugar de uma Ilíada, recebemos uma nihilíada, uma macarronídia. Finda a lenda, resta a delenda. O herói sem projetos, sem vida interior e sem nome luta contra as máscaras que revestem o vazio em demanda da nudez do nada, da nudez do papel. A apsara é denunciada como pseudoapsana num falso templo hindu porque o feminino abre-se em fenda além dela, a ferida onde escorre a vida, a viscosa placenta do nada.

      O sulco no mar é a fenda que se fecha para gestar e se abre para gerar. O poema semelha uma borboleta de asas vermelhas que fechada é um livro e aberta mulher. O oinopa ponton homérico, o mar cor de vinho, se traduz em vulva violeta, sexo chaga lábios de ferida crinipúbis ouro no vermelho. Seduz, embora nenhuma essência, nenhum mistério, nenhum sentido se escondam em seu bojo. No papel, metáfora do mar, no papel-mar, abre-se uma ferida úmida por onde a vida escorre. Num universo feito de signos de nada, quimono-borboleta mostra, ao se abrir, a mulher-livro.

      Em lugar do eldorado que atraía os navegadores, temos um eldorido feldorado latinoamargo. O paradiso dantesco dessubstancializado devém materialidade textual, parladiso. O que se diz do mar vale para a página em branco, mar-texto. O texto é produzido sob a espécie da viagem. Note-se o latinismo semântico em espécie, derivado de species, aspecto, espetáculo. Para acompanhar o espetáculo, convocam-se, além do olhar, o olfato e o ouvido. As sugestões olfativas são abundantes, as sonoras insistem. O ritmo do livro imita as ondas do mar que, encadeadas, começam e recomeçam sem irem a lugar nenhum. Sinais de pontuação perturbariam o ritmo, travariam o movimento. Em lugar de parágrafos há fluxos e refluxos, sustentados pelo insistente emprego do gerúndio. Lugares que os mapas separam cunfluem, refluem. Em lugar de dias, meses e anos, temos milumanoites, noites sem princípio nem fim, cabendo todas numa noite só. A ausência de limites entre as porções temporais leva à criação de uma palavra gigantesca em que todas os segmentos são reabsorvidos na mesma unidade: horáriodiáriosemanáriomensárioanuário, unidade do livro, visto que as milumanoites revêm em milumapáginas. O fluxo do escrever não cessa, porque detê-lo seria a morte, não situada em algum lugar fora do texto, mas incorporada ao texto, necessário ao texto, porque das entranhas da morte a vida se refaz. A estória e a escória formam um corpo só.

      No mar-texto não se aguardam lances originais. Escrever não é produzir, é traduzir. Lê-se em Galáxias que o branco é uma linguagem que se estrutura como linguagem. A definição parafraseia Lacan. O branco, tendo tomado o lugar do inconsciente lacaneano, não pode ser posto na categoria de estruturas fixas. A linguagem feita de fluxos e refluxos procede de um branco da mesma natureza, fluir contínuo, viés imprevisíveis, imprevisibilidade dos possíveis.

      De Signância quase céu a Galáxias, a construção do mundo sofreu alterações. A seqüência temporal que vem das origens até a disseminação presente desapareceu. O poeta já não insiste no procedimento de começar pelo fim. Fim já não existe, nem começo. Todo começo é recomeçar. O começo nos levaria a uma instância autoral ou a um acontecimento desencadeante. Está-se num jogo em que não haverá prelúdio nem interlúdio nem poslúdio. Elidida a relação causa-efeito, temos fenômenos que de si mesmo de manifestam.: a neve neva, a noite noita, o fim fina. Em Signância tínhamos ilhas perdidas num mar de silêncio, pontos conectados só na experênca da leitura. Em Galáxias o próprio texto se encarrega de construir as conexões. O texto textualiza, produz a sua própria textualidade. Levados pela viagem, só conseguimos refletir sobre ela no instante em que a interrompemos. No interesse da reflexão, seccionamos o que é inteiro. Fenda, só a da origem originante, vista não em si mesma, mas no fluir sem fim. Este não é o rio heracliteano. O pensador de Éfeso requeria território seco para que se pudesse refletir sobre o fluir. A constante exigência de parar produziu os fragmentos. O fluir de Galáxias busca os sentidos, não a razão. O discurso logocêntrico fragmenta o todo deixando o fluir em abismos que os sentidos não alcançam. No pensamento antilogocêntrico, o movimento das ondas sobe à superfície, sentimo-las corpo a corpo, no roçar da pele. Fragmentos, só os que mentalmente construímos. O livro é de ensaios porque nada se define. As cidades nomeadas dissolvem-se na bruma. Vozes soam sem que se identifiquem os locutores. No mundo destituído de elos causais, o nada é poeira levantada é ímã na limalha. O imprevisto exila o visto. Por trás das palavras, palavras que são coisas, não acontece explosão alguma nem jamais aconteceu, reino o silêncio, o oco das coisas.


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      Donaldo Schüler
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