Não se procure em Signância o narrador de uma história. Quem visita o texto entra numa história em processo. A geração de palavras não se limita às registradas. A palavra foi depositária de um saber passado e ainda o é. Palavras mil vezes repetidas ao longo da história repercutem em muitas idades. Comparecem como documento, inertes quando algemadas a contextos verbais. Haroldo, rompendo elos, desconstrói. Inumadas, as palavras voltam a respirar em contextos móveis, vivos. Ao contrário da algemada, a palavra desconstruída oferece mais do que promete. Palavras que fazem falar destronam o hermeneuta atraído por sentidos sedimentados. A página em branco assustava. O autor a enfrentava como um adversário. Sentia-se vitorioso quando tinha coberto o espaço com palavras para esconder o silêncio. Concluído o trabalho, além da palavra não se percebia nada. Nas páginas de Haroldo de Campos, o espaço vem à tona. Toca-se na palavra para despertar o silêncio. No relato de Ulisses à corte de Alcino, o silêncio é a exceção. Nas histórias encadeadas de Sheerazade, o silêncio é a morte. A princesa enche as noites de palavras para não morrer. Os narradores do Decameron narram para esquecer a mortandade causada pela peste negra. Na queda de Lúcifer, o silêncio requer a dignidade da palavra. A palavra se alimenta do silêncio, faz o silêncio falar. O vazio é invisível. Só a presença discreta de um corpo o faz aparecer. O silêncio é inaudível, só o som o faz vibrar. As palavras são restos de um exército derrotado. Sem vínculos, sem comando, agrupam-se tímidas, isoladas.
As linhas narrativas se sobrepõem. Acompanhamos um poema cósmico em que Lúcifer, expulso do céu desce pelos círculos do inferno até alcançar as regiões sombrias em que a vida se regenera.
Tarefa do poeta é organizar um universo para o qual não há normas ditadas por autoridades absolutas, monarcas esclarecidos. Os preceitos na dança, na música, na ética, na poesia surgiram numa época em que se tinha espaço e tempo como dominados. Como cultivá-los quando se percebem vibrações da explosão universal, anterior ao trinado das aves, ao canto dos aedos, à fuga de Bach, à canção de Caetano Veloso? Antes de homens e deuses, a glande de cristal lança sementes no espaço vazio. A explosão é a língua sob as línguas, o ritmo sob os rimos, o som sob os sons. Sendo atonal, a explosão dissolve sintaxe e livros. Uma frase anuncia outras frases, um livro anuncia outros livros, uma galáxia anuncia outras galáxias. Há fluxos, propagação, irradiação. Fronteiras não há, heróis se abrigaram na lenda.
Mas ouvimos também uma sinfonia que abre com um toque de sinos e termina em coda. Acordes enunciados são interrompidos como na música dodecafônica. O poema evoca a música de Webern. Glande de cristal é anunciado como acorde do universo. Temos dificuldade de aceitá-lo à primeira leitura como um acorde perfeito. A distância entre a anatomia e a mineralogia demanda um esforço de análise em que o texto se apresenta extremamente parcimonioso. A ramagem de signos que explode em seguida isola o acorde, repetido, mas com grandes distâncias. Revém em chuva de ouro. Como esperar que os acordes se repitam em intervalos curtos no espaço infinito? A orquestra saiu da sala de concerto. Soa no universo indomável, sem fronteiras. Como perceber ritmo nas constelações se o número das galáxias já sobe a cinqüenta bilhões? Atente-se para vibrações sutis. Os sons que se aglutinam em torno de azul, a última palavra do poema, abrem o poema em Glande de cristal, passando por rútilo, último, cúpola, luz, lente, lucilada, limalha, total, elipse, pólen, explode, violeta.... Misturam-se com efeitos sonoros em r, em s, em u , em a... Combinações múltiplas com variados efeitos. Acrescentem-se conjuntos criados com tonalidades de cores: azul, profundoazul, azul-pássaro, índigo, ruivo, ágata, cinza, cinzopaco, rubi, bauxita, escarlate, luz negra, branco absoluto, violeta, rostriamarelo, turmalina, fulvo. Alude-se a cheiros: aroma, perfume, avencas, violetas, farejando, eucaliptus, pituitária. O sem-narinas só despertará da morte no momento em que as narinas se abrirem. Com o olfato despertam os outros sentidos. Vendo, o sem-narinas saberá que ele não é a cor; ouvindo, saberá que ele não é som; tocando, saberá que a superfície áspera ou suave não é ele. O mundo se fará sonoro, olfativo, luminoso, táctil nele. Num universo sem limites, ele saberá que é menos que um grãozinho de pó, Lúcifer em queda. Entra-se na vida transgredindo. Quando o corpo se fechar, não haverá mais som, nem cor, nem formas.
O pavor do vazio se evidenciava na preocupação de recobrir todos os espaços quer na pintura, quer na poesia. Os ritmos regulares asseguravam a vitória sobre o tempo. As palavras que se sucediam com regularidade prevista garantiam autoridade sobre o espaço. O triunfo começou a ser questionado na irregularidade dos metros líricos. Os versos, quando se contraíam, deixavam desguarnecidos territórios outrora ocupados. Os vácuos que se abrem na pintura de Miguel Ângelo repercutem nos brancos que rondam as palavras em certos poemas de Gregório de Matos. Até a prosa de Machado, já bastante indecisa, cede ante o império dos sinais de pontuação, libertos de sua tradicional posição subalterna.
Na poesia de Haroldo de Campos, o espaço se ergue à altura das palavras. Os significantes tocam no silêncio e o despertam. As constelações, sucessoras das estrofes, escancaram a profundidade dos abismos. Os signos navegam desamparados sobre nada.