O lúcifer-poeta passa na queda pelas graias, em número de três. Celebrizaram-se ao apareceram no caminho de Perseu, explorador do mundo inferior. De tão velhas, as graias estavam reduzidas a um só olho, a um único dente para atender a necessidades comuns. À medida que nos afastamos da superfície iluminada, damos com o bolorento, o disforme. A queda luciferina desvela. O poeta avança para consultar poetas ilustres: Sousândrade, Oswald, Kilkerry. Oswald ainda estava na nossa lembrança. O primeiro e o último já tinham bebido das águas do Letes. De Sousândrade o poeta lembra o Guesa, que vem dos andes. A antropofagia de Oswald é sugerida com os dentes/caninos como se Haroldo estivesse falando de Cérbero, o cão dos infernos. De Kilkerry entrevê-se, em traquéia dessangrada, o "sangue da luz em cada folha" do poema "É o silêncio...", que Augusto de Campos aponta como um dos melhores do poeta revisitado. NEKUIA lembra o inferno dantesco, abrigo de inolvidáveis poetas.
O/ lótus/estala/no/ócciput . Ao inclinar-se, fundem-se planta, homem, e poema. Na presença da morte, a planta e o homem inclinam a cabeça melancolicamente. Cabeça inclinada é cabeça em queda, perdida a rigidez cristalina que a erguia triunfal no paraíso . No poema em queda, vértebras são as letras do alfabeto que como o lotus se dobra. O poema desceu do caput ao occiput, o ocipício, lugar em que a cabeça se inclina. Putresco. Embora o verbo latino venha em primeira pessoa, não se refere a nenhum sujeito. É hábito dos dicionários latinos registrarem o verbo na primeira pessoa do singular. As demais pessoas são desvios desta. A queda luciferina é acompanhada pela putrefação generalizada. Começando em putresco no alto (p.77), os olhos descem como por uma tabela de conjugação para reencontrar putresco no fim. A disposição dos signos representa materialmente a morte. Reflexo da conjugação que se desdobra em tempos, modos e pessoas, a página universaliza a queda de Lúcifer e a morte.
HÚBRIS. Há dupla transgressão, a dos que entram em vida no reino dos mortos (disso Ulisses é transgressor exemplar) e a dos mortos que retornam à luz. Em ambos os sentidos a transgressão ocorre no corpo do tigre, a arte de escrever. Antropofagia. HÚBRIS despiu punições que originavam tragédias. Para o navegador de galáxias, as proibições que confinavam o homem no diminuto cosmo grego não passam de lembranças.
As páginas 80 e 81 abrem-se como as asas de uma borboleta, nascida da crisálida. Borboleta-dragão. Da crisálida à borboleta, passamos do caos ao cosmo. Transitivo como a borboleta, o dragão devora e expele transfigurada a presa. Guardião dos tesouros ocultos, deve-se dominá-lo para ter acesso aos tesouros infernais. Todo leitor luta com o dragão, o texto.
Os casos/do acaso. À semelhança dos nomes latinos, o acaso se declina, e na queda gera casos, define-se, localiza-se, multiplica-se. O poema, caso do acaso, pende como gerânios. Inclinando-se, devora, desperta, ressuscita, devolve. Como cristal de violetas, o poema farfala (farfalha e fala), dispõe-se ao canto e desvela. Recuando na linhagem verbal, chegamos da fala à luz: falar, fabulare, fari, phaos. No subir e no descer as coisas se constituem. O poema alude a Heráclito para quem o caminho para cima e para baixo é um e o mesmo.
Em CODA, a sinfonia chega ao fim. O silêncio se adensa. Atentemos para os últimos sons. De apara, fragmento, forma-se apsaras, derivado do verbo psao (raspar, aplainar), donde se origina também ) palim/psesto), de duplo movimento. O produtor de palimpsestos raspa o pergaminho para registrar, por economia, novos textos. Os textos elididos são menos densos que os novos? Eis a dúvida que desafia os leitores. Recorremos a recursos para recuperar o soterrado. O texto abre-se em campo de batalha. Nega e é negado. Além da última camada, outras desafiam o leitor. Ler é trabalho de arqueólogo. As riquezas de homens pragmáticos circulam à superfície. Adverte Cristo que um camelo passar por um fundo de agulha é mais fácil do que um rico entrar no reino dos céus. Aos mercadores do STATUS VIATORIS cerram-se as portas do inferno, da poesia. Últimos lêmures, derradeiros sem- narinas a provarem das iguarias do fosso. Sem az, ul é signo de nada. Saímos do nada e chegamos ao nada, origem de tudo.
Signância pode ser lido como epopéia. A visualidade plástica, obtida com novos recursos, recua até Homero, a ausência de subjetividade também. A epicidade de origem grega cruza-se com outra, a que procede da Divina Comédia. Haroldo alude ao poema de Dante, invertendo-lhe a ordem. A inversão, subordinada à epígrafe de Novalis, exclui a visão messiânica do poema medieval. As camadas sobrepostas entram em relação crítica. Haroldo de Campos escreve às avessas, processo que examinou atentamente em "The Raven" de Edgar Allan Poe. As inversões não se detêm na reorientação da viagem. A visão metafísica de Dante cede espaço ao que se passa no mundo em que vivemos. As três partes distribuem-se como um haicai. Depois da visão geral da primeira, intervém a transformação processada na segunda. A iluminação, no processo das inversão, não vem de luz do alto, procede da morte. Não se percorre Signância amparado de guia. O texto lacunoso favorece indecisões no percurso. O rendimento da leitura é determinado pelo interesse do leitor. Livros se abrem toda vez que solicitamos informações sobre assuntos apenas aludidos. A linha divisória entre o poema e o mundo se apagou.