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      A tradução de Haroldo é bem fundamentada e inventiva. Quem a lê entra numa festa de sons. Haroldo enfatiza a importância de helenizar a língua portuguesa, ao contrário de outros tradutores interessados em vernaculizar traduções. Não se espere, entretanto, a façanha do salto para o mundo grego do oitavo século antes de Cristo. Homero tem fortes caraterísticas da poesia oral, competentemente analisadas por Trajano Vieira. A tradução de Haroldo traz as marcas da poesia escrita. O que pertencia à bagagem coletiva dos aedos vira eruditismo peculiar na tradução de Haroldo. Parodiando o título de um ensaio de Augusto de Campos, Um lance de "Dês" do Grande Sertão, podemos considerar esta tradução um lance de nadas na Ilíada. O leitor atento observará que nadas abundam na tradução de Haroldo mesmo em lugares em que o original não o apóia. Acresce que Homero e o restante da literatura grega não conhecem "nada" no sentido em que Haroldo e Derrida o empregam. O nada absoluto -Haroldo o sabe- foi desenvolvido pela exegese bíblica, e levado pelo niilismo contemporâneo às últimas conseqüências sem poupar Deus, mundo nem homem. Haroldo nos oferece uma tradução helenizada com forte sotaque moderno. Erro? De modo nenhum! Aconteceu o inevitável. Todas as traduções trazem a marca de sua época. Erro haveria se recebêssemos Haroldo como novo Homero. Mas então o erro seria dos receptores e não do tradutor que, ao lado de Odorico Mendes e Carlos Alberto Nunes, enriquece o acervo das traduções de Homero. Lamentamos que Haroldo de Campos não se anime a traduzir a Ilíada inteira. Se o fizesse, nos proporcionaria horas de prazer e nos obrigaria a pensar, e muito.

      Passemos da tradução à produção épica de Haroldo. Signatia quasi caelum/Signância quase céu é um poema cosmogônico. Coisas tocam-se, degustam-se, contemplam-se, cheiram-se. Coisas afetam os sentidos. O paladar responde à qualidade do vinho, o olfato recebe a fragrância da flor, olhos e ouvidos recebem a poesia. Não pretendemos interpretar. Queremos abrir os olhos e ver, queremos ouvir. Como poderíamos interpretar transparências, objetos? Interpretam-se discursos que escondem outros discursos. Intérpretes chamam ausências, falam como iniciados. Atravessam o visível em busca do que não se vê.

      Omitimos diálogo. O diálogo é feito de perguntas e respostas. As constelações haroldianas não perguntam nem respondem. Aguardam como os traços de um quadro. Ensaiamos visitas como as que fazemos na rede mundial de computadores. Assinalamos em itálico os lugares visitados. As visitas nos levam a outros endereços, outros livros. Acompanhando a mobilidade dos objetos de Signância (chamaremos por economia daqui por diante o livro assim), cedemos a lembranças de leituras antigas e recentes. Visitamos sem obrigação, conduzido só pelos impulsos, sem regularidade, sem previsibilidade, como se percorrem hipertextos. Erro não há. Não poderia haver. Ninguém contestará que sinto quente uma corrente de ar que outros declaram fria. Elegendo o partido que Platão aguerridamente combateu, não procuramos nada além da cadeia de signos. Signos geram signos. Fica aqui o registro de alguns.

      O livro apresenta dois títulos, o primeiro: Signantia quasi coelum é latino, o segundo: Signância quase céu é tradução aproximada. Signantia vem de signans - o que assinala. O neutro plural nos dá signantia, coisas que assinalam, que produzem signos. O título latino alude ao pensamento medieval e o inverte. Na Idade Média a matéria era determinada (signatio) pela forma. Aqui a matéria determina a matéria. Se queremos entender essa determinação, temos que recuar até os estóicos com Gilles Deleuze ou refletir sobre os chineses com Haroldo de Campos. A China esclarece as conotações do céu (coelum) no poema de Haroldo. No livro Ideograma, o poeta transcreve um ensaio de Chang Tung-Sun que ressalta as peculiaridades do céu chinês. Os chineses não refletem sobre a natureza do céu. Não se sabe de divindades antes do céu. Céu é providência. Buscam o céu para se orientar, evitar o infortúnio. Em português, o neologismo "singnância" pode ser o conjunto dos sinais, o processo pelo qual se produzem sinais. É como se o latim nos desse a fonte de que o vernáculo nos fornecesse o resultado. Quasi significa ainda "à maneira de". "Coisas fazem sinais à maneira do céu" seria tradução plausível. Poderíamos entender o título como a transferência da palavra geradora, do céu para as coisas. Visto assim, o título latino sustenta que as coisas trazem em si mesmas o poder criador atribuído ao céu. O título português sugere o processo de produção de signos, idêntico ao trabalho do poeta. Avancemos na leitura do poema orientados por esta hipótese.

      A primeira das quatro partes em que se divide o poema leva apenas o título latino, Signantia quasi coelum. Abaixo dele vem uma epígrafe em alemão, extraída de Novalis que diz "o paraíso está igualmente espalhado em toda terra - e por isso tornou-se tão desconhecido." A epígrafe nos leva à terra, ao paraíso terrestre, à perda da bem-aventurança paradisíaca. Havendo perda, há transformações, história.

      O livro é de 1979. Em 1966, Michel Foucault escreveu As palavras e as coisas, ensaio que trata da relação entre signos e referentes. Para Foucault, a semelhança orientou o saber ocidental até fins do século XVI. A terra espelhava o céu, a literatura imitava a vida. O homem ocupava posição privilegiada, porque nele se resumia o mundo: o rosto refletia os céus, as sete aberturas no rosto correspondiam aos sete planetas. Em Haroldo de Campos correspondências há mas sem nenhum privilégio para o homem ou de alguma individualidade supra-humana. Em Singnância, o assassinato do homem já ocorreu. No princípio impera a glande, o poder criador do universo.


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      Donaldo Schüler
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