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      A voz divina, ao detalhar poeticamente portentos da criação, aniquila as pretensões do homem que teve a ousadia de se arvorar como juiz. Jó não lembra o homem que no Gênesis recebeu o título de senhor. A voz divina abala em Jó quaisquer soberanias. Haroldo acompanha as repercussões do Livro de Jó até os insolúveis conflitos das infaustas personagens de Kafka.

      Procuremos entender o poeta-tradutor. Em jogo está a inquietação moderna. Praticando uma espécie de arqueologia textual, Haroldo vai às raízes, estejam elas onde estiveram. Fiel à tradição inaugurada por Eliot e Pound, Haroldo traduz e justapõe pedaços. Resultado: montagens que recolhem e superam o sentido dos estilhaços justapostos, metáforas. A obra que o autor está produzindo comporta-se como um mosaico em que as criações originais não se distinguem dos textos citados e traduzidos. A poesia se instala na ressonância dos significantes que repercute nos comentários. A ênfase dada aos significantes reduz a pó os significados como se vê na tradução de trechos do Eclesiastes.

       

      I,1. Palavras / de Qohélet filho de Davi //

      rei / em Jerusalém

      2. Névoa de nadas / disse O-que-Sabe //

      névoa de nadas / tudo névoa-nada (1)

       

      Esta é a tradução dos dois primeiros versículos. Tradução? Tradução paródica. Entenda-se por paródia não a imitação risível do sério, mas a evocação crítica, inibidora de convergências. Procedimento similar observamos, hoje, em obras de arquitetura, música, cinema e pintura.

      Haroldo sublinha a dialética sincronia/diacronia nas notas. Nietzsche e as vanguardas delimitam a sincronia. "Névoa de nadas" entra no jogo paródico da aproximação e do afastamento. Corresponde ao "vanitas vanitatum" de Jerônimo e ao "vaidade de vaidades" de traduções modernas. Tomando "vaidade de vaidades" como oposto a eternidade, as ortodoxias conviveram tranqüilizadas com a atmosfera sombria do Eclesiastes. "Névoa de nadas" revolve e abala o resolvido. Haroldo de Campos agita um amplo contexto de inquietações que ressoam em Píndaro, nos céticos antigos e modernos, em Calderón de la Barca. O Eclesiastes passa a ter sabor de maneirismo e de rebeldia vanguardista. Os comentários de Haroldo, justapondo interpretações conflitantes, proporcionam aventura numa divertida refrega de significações, incursão nos labirínticos corredores da borgiana biblioteca de Babel. O sentido, desfazendo-se como a névoa, deixa a ossatura dos significantes que dizem tudo e, por isso mesmo, não dizem nada. "Névoa de nadas" abre abismos a sólidos fundamentos.

      Não há limites para alusões intertextuais. Atrás de Qohélet somos convidados a recordar até o genial e tresloucado Qorpo Santo. Esse Qohélet já não é o inspirado Pregador bíblico, é O-que-sabe, misto de Qorpo Santo, sabedoria popular, elucubração erudita e experimentalismo, rei de Jerusalém ou de qualquer outra metrópole, antiga ou moderna. O tradutor nos convida a ver a similaridade gráfica das iniciais no nome hebreu (QOhélet) e no nome literário (QOrpo Santo), inseridas na tradução (O-Que-Sabe).

      Os instrumentos agenciados por Haroldo de Campos desterritorializam o texto. Este, reduzido a significantes, está exposto ao leque das significações. A atenção se desloca do sentido para os sentidos, da unidade para a disseminação, do autor para as leituras.

      A atitude não muda quando traduz o primeiro canto da Ilíada no livro Menis, a ira de Aquiles. Suas eleições anteriores levam-nos a supor que foi o nada que atraiu Haroldo ao canto que abre o poema em que os aqueus lutam inutilmente para vencer as inexpugnáveis muralhas de Tróia. As sombras do canto se adensam nas almas dos heróis enviados ao hades, nos corpos devorados pelos cães e pelas aves, na mortandade causada pela peste, nos debates apaixonados que varrem reflexão serena, no ódio que divide o exército. O glorioso Aquiles, de orgulho ferido, procura aos prantos a mãe como em criança. Zeus, cansado das obrigações de governante, delicia-se com banquetes que devotos lhe oferecem. Conflitos de mortais assolam a serenidade divina. O palácio olímpico reflete as misérias que abalam o acampamento grego. Haroldo de Campos sublinha o vazio devastador na tradução do verso 231, cuidadosamente conduzida:

      Devora-Povo! Rei dos Dânaos? Rei de nada. (I,231)

      Estas palavras, que aparecem entre os insultos lançados contra Agamênon por Aquiles, violentos mesmo depois da advertência de Palas Atenas, poderiam ser traduzidas assim por alguém que não cuida do aspecto material da palavra: "Explorador do povo, pois governas imprestáveis". Não só aqui percebemos despontar consciência democrática na Ilíada. Contrariando preceitos da disciplina militar, Aquiles imagina uma assembléia de soldados que fiscalize com rigor os atos dos comandantes. Procedimentos desejados na condução do estado e comportamento militar se confundem. Haroldo de Campos, no entanto, para quem poesia é sobretudo som, ressalta, apoiado em helenistas, a semelhança material entre outidanoisin (imprestáveis) e danaoi (dânaos), nome que Homero atribui aos atacantes de Tróia. Com a tradução vista, Haroldo pretende salvar a semelhança entre o adjetivo e o substantivo. Salva-a, efetivamente, mas introduz um conceito que não figura neste verso, caro ao poeta-tradutor : nada. O sintagma "rei de nada" não se encontra em nenhum lugar dos poemas homéricos.


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      Donaldo Schüler
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