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      O olho fosfóreo de Dante (se enubla em licorosa luz neon. Haroldo de Campos, habitante das cidades iluminadas a neon, começa onde Dante parou. Deixa a luz para jornadear entre coisas iluminadas, para imergir em trevas. No fundo das trevas brilha a luz.

      Na segunda parte do poema, Status viatoris: entrefiguras, o signo rompe a união com as coisas. Torna-se veículo. Em trânsito estão os que vêm. Os que aportaram no Brasil buscavam as Índias. Um olhar estranho cai sobre as coisas e as transfigura. Sendo mercadores, fazem da madeira mercadoria. Sendo cientistas, buscam nas camadas dos troncos abatidos marcas do tempo. Em todo lugar o comportamento é o mesmo. O mundo coberto de signos atrai decifradores. O que escondem montanhas e mares? Um mar abre as portas a outro, um continente leva a outro. Imensa é a fome: de trazer, de transferir, de mercadejar. Mercadorias abarrotam navios enviados para descobrir. No mundo transformado em mercadoria, o mercado estabelece o valor. Nada compete com a mercadoria, nem a vida. A palavra instrumentalizada toma o lugar da visibilidade inaugural. Águas e territórios se revestem de signos, signos de outros signos em cadeia infinita. Os corpos recuam, aumentam as buscas, some a poesia.

      O monstro caraíba é monstro porque destrói. O olhar do caraíba não se delicia com o que vê. Atraído por riquezas materiais ou metafísicas, desvaloriza o que toca. Campos povoados de homens cobrem-se, na trilha do desbravador, de esqueletos polidos. O olhar do viator reduz, desde Platão, o visível a sombra. Foram-se os diamantes. Restam ecos de diamantes. Na falta de fogos, fogos de palha. Em lugar de ventos, tempestades no copo. Por falta de luz, proliferam heliotropias.

      Das ejaculações da glande de cristal nascem galáxias. A vulva de cadela, porque tudo pede, tudo perde. A palavra-instrumento testemunha carências . O raciocínio que no Simpósio de Platão culmina no Eros carente cobre a literatura ocidental. O simpósio dos intelectuais que procuravam o bem além das nuvens originou o simpósio de gerentes que partiram para fazer a América além dos mares. O gerente conhece, estabelece o valor. Sabe interpretar desejos e a maneira de satisfazê-los. A palavra subordinada à troca de mercadorias perdeu o brilho da aurora cristalina, resiste às trevas infernais. O discurso dos gerentes assemelha-se à licorosa luz neon. As palavras, plenas outrora como as sementes, definham encadeadas no discurso.

      Esboços para uma nékuia intitula-se a terceira parte. Nékuia? Segundo Plutarco, nékuia é um rito mágico com o qual se evocam os espíritos dos que já morreram para obter informações sobre o futuro. Designa-se com este termo também o XI Canto da Odisséia que narra a descida de Ulisses ao reino dos mortos com o objetivo de saber de Tirésias o rumo a tomar para chegar a Ítaca. Nékuia se entranha profundamente na epopéia de Haroldo de Campos. No fim da primeira página o poeta transcria o termo grego com os sem-narinas. Como se chega a isso? Consultemos os dicionários. No avestano, língua indo-européia em que foi escrito o Avesta, coletânea de textos sagrados do zoroastrismo persa, nasu significa cadáver, no sânscrito nasyati significa perecer, desaparecer, no latim neco significa matar. Os quatro termos apontam origem comum. A imaginação poética leva Haroldo de Campos a incluir nasus (nariz) nesse contexto semântico, atribuindo, por verbo-montagem, sentido negativo à primeira sílaba de nekuia. Conclusão: "os sem-narinas" são os mortos, nós os que não respiramos o ar do paraíso, nós em quem o ar não se mostra na sua substancialidade pura, não-instrumental. Aos sem-narinas falta ar, falta sangue para viver, produtos que mágicos como Ulisses e Haroldo oferecem para devolver por instantes a vida. Os sem-narinas, os beira-fosso não são a negação da vida. Tendo corações-de-caramujo, mostram e escondem os chifres a exemplo da lua, superfície luminosa viva que morre e renasce. No diálogo que os poetas mantêm com os que já partiram, os mortos revivem.

      Entenda-se o título: Esboços para uma nékuia. Não estívessemos lendo esboços, o esforço para entender um só termo seria dispensável. Homero exige menos, explica tudo. Dirigindo-se a ouvintes que se distraem, Homero repete muito. A narrativa homérica, ao contar com interrupções, com distrações, se assemelha à narrativa da telenovela brasileira. Entre a economia haroldiana e a abundância homérica, a diferença é gritante. A oralidade foi substituída pela escrita; a festa, pelo trabalho.

      Signância foi escrito para ser ouvido e visto. A distinção que Lessing estabeleceu entre arte do espaço e arte do tempo já não se sustenta. Mesclam-se efeitos sonoros e visuais no poema de Haroldo. No alto da página que abre Esboços para uma nékuia lemos desço cercado de palavras. Os sem-narinas estão embaixo acompanhados só da morte. Nékuia é a sombra dos sem-narinas. A página constrói pictoricamente a descida.

      O caos facetado abre Esboços para uma nékuia. O Paradise Lost de Milton já nos indicara relações estreitas entre Inferno e caos. Novo é o "caos facetado". Facetam-se pedras preciosas, cristais. Caos facetado não é outro que este em que vivemos, reino de sombras. Não afirmam os cientistas que em todas as formações caóticas -incluam-se as nuvens- há um princípio de organização? Caos facetado é o poema. Fragmentos caoticamente recolhidos em experiências de vida e de leitura recebem cuidados que lapidadores dedicam a pedras. Os parnasianos já procediam assim. O caos facetado compensa a perda da cúpola radiosa festejada na primeira parte.


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      Donaldo Schüler
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