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      Signância abre como uma sinfonia do uni/verso. Conjugue-se universo e verso. Como verso, o universo é poema e se escreve a si mesmo, de si mesmo se desvela. Seja rútilo/ último o derradeiro brilho, mas de intensidade tamanha que ilumina tudo. O esplendor que encerra é o mesmo que inaugura, a explosão primeira a vibrar nas estrelas como o badalar dos sinos. O proêmio antecipava eventos na epopéia antiga. Quem narrava dominava as etapas futuras. Onde estava o proêmio vibra o acorde de uma explosão. O azul celeste arredonda-se em abóbada sobre o templo aberto aos que respiram e aos que não respiram. Que relógios, que calendários medirão o tempo universal? Eminência autoral não há. Rútilo/ coere cúpola radiosa e sino. Luz, arquitetura e som unem-se para a composição do poema universal. A afirmação em sim um sino é sim e som.

      A fanopéia precede a logopéia, as coisas se mostram antes que a palavra incida sobre elas. A arte produz-se espontaneamente. O sol se ensolara, se faz sol. Em milhares de anos o peixe escava sua imagem na pedra. Fósseis são auto-retratos. A pedra se arboriza. O esplendor da natureza é teofania de signos que integram textos para serem ouvidos, cantados, apalpados, degustados, vistos e lidos. Retomando a disputa medieval, o poeta declara o todo natura naturante ( natura naturans), e não resultado de ato exterior (natura naturata). Há signos, mas signos de si, ereção de signos. A escrita solar impera, o sol escreve. O ar fala no gorjeio dos pássaros. Contrariando o Gênesis, a palavra produz coisas, coisas produzem sinais. Elas são signantes. Signância é semência, produção de sementes, de sêmen. A força poética dispensa o homem. A energia que ela deixa nele não se distingue da força das pedras que desenham árvores e peixes em seu próprio corpo. O gênio que na visão romântica distinguia homens privilegiados é dom da natureza. Os discursos seminais (logoi spermatikoi) dos estóicos revivem.

      Glande de cristal. Vêm-nos à mente as reflexões de Haroldo quando traduzia partes do Gênesis. Como o Gênesis, Signância começa na cabeça (ro’sh, caput), na glande. O caráter fálico que o poema adquire desde a primeira palavra lembra a Teogonia de Hesíodo. Sensível às queixas da Terra, sua mãe, Crono agride Urano, o pai prepotente, amputando-lhe o falo que, ao cair no mar, gera Afrodite, a deusa do amor. O cosmo começa a se desenvolver ordenadamente a partir dessa divindade fálica. Tudo indica que esta versão é anterior à que se encontra nos poemas homéricos. Filho de uma sociedade patriarcal, Homero submete o mundo ao governo de Zeus. Não desejando que a potência geradora opere fora da autoridade do deus supremo, Homero faz de Afrodite filha de Zeus. O poder de gerar é dele; suas infindáveis hierogamias testemunham sua fecundidade. Por esse expediente, o falo amputado é devolvido ao pai.

      Haroldo, embora homenageie Homero, alista-se no exército de Crono. Mortos os deuses, resta o falo, origem de tudo. Na teofania de Haroldo a fecundidade de divindades prolíferas como Zeus voltou às origens, ao poder de reproduzir que extingue privilégios. Zeus perece, a glande sobrevive. Signância, produção de signos, e semência, produção de sêmen, (con)fundem-se. Glande de cristal. Este é o primeiro acorde da sinfonia de ressonância auroral. Na cultura mágica, o cristal é embrião, é glande. O diamante nasce dele. Em glande de cristal, o reino animal e o mineral se abraçam como irmãos. Globo diamantino. Cristalino ou diamantino, o globo desvela sem que se perceba parede divisória. Globo é o poema, material, cristalino. Como quem olha pelo cristal/ do tempo. O poema nos leva a objetos concretos, os de ontem e os que estão ao alcance de nossas mãos. Coisas ficam suspensas no tempo como partículas de pó no ar. Escrever no vidro/sentenças de vidro. Em papel escrevem-se textos herméticos. Hermeneutas exercitaram-se em sinais gravados em pergaminhos, papiros, folhas, lâminas opacas. Imagens refletidas nos espelhos erotizaram olhares narcísicos. Espelhos barram, delineiam imagens sonhadas. Em lugar de espelhos, vidros. O vidro se anula em favor das coisas mesmas. (Disso - iris no iris - se faria o paradiso) O arco-íris, mítica união entre terra e céu, colorido como as serpentes, serpentariamente sábio, aparenta-se com o cristal no poder de aproximar. Paraíso são as coisas.

      Embora primitiva e universal, a teofania não é o fundamento. Como poderia arrogar-se privilégios de primitiva, sendo palavra composta? Primitivo é fanos , derivado de phanós (o brilhante, a tocha), brilho anterior aos entes. Procedendo dessa fonte, teofania irmana-se a fanopéia. Considerando que etimologicamente theos entra na linhagem das palavras que significam luz, teofania é luz de luz. Em qualquer de suas formas, a luminosidade se gera de si mesma. Fanos, que acontece num abrir e fechar de olhos (o segundo da explosão inaugural infinitamente repetido, repercutido) é o átimo das coisas, átimo e étimo. Brilha no sol, lucila na lente, percute e tinge o silêncio. Núcleo é ele.

      Frases no papel têm a origem das águas, das plantas, das pedras, do ar, do sol. Distribuem-se como limalha de cristal. Sendo pó, por que agrilhoá-las com nexos lógicos? Não operariam melhor livres, armadas só do estalo que as originou? Sendo limalha de cristal, as frases prognosticam, rememoram, desvelam. Com arestas de/grafite as frases comparecem geometricamente dispostas, brilham e soam, teofania de signos e de sinos. Grafo /estelante é o gesto que produz estrelas, constelações. Grafo é o processo da grafia inteiro, sem excluir o espaço em branco. Movimenta a mão e os corpos estelares. Poemas são constelações, constelações são poemas. Grafo produz palavras, partículas, dígitos de/tempo, dúvida, lugar. Grafo é o golpe que fragmenta, reduz o cristal a limalha. Grafo é teofania.

      Em cerimônias iniciáticas, o tigre devora e promove o renascimento. Enreda-se no poema com plantas carnívoras e com a arte de escrever, que devora para restaurar. É a antropofagia oswaldiana em ação. Tigre, um dos rios do paraíso, fecunda a terra. Ra, o deus solar egípcio, ilumina as coisas, brilha no pólen para gerar, é o sim do não.


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      Donaldo Schüler
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