Sons, ritmos e nexos gramaticais funcionavam desde Homero como instrumentos de organização do poema e do universo. Inspirado pelas musas, o poeta oferecia unidades prontas a auditórios encantados. Rompidos nexos, o encanto arrasta-se ferido. Se não estivermos dispostos a participar da organização do poema, penamos as dores da incomunicação. Sem-narinas que somos, respiramos só durante o tempo em que comungamos das iguarias (ar e sangue) guardadas no fosso, o poema. Fossos há muitos. Inumeráveis são os que repetem a tenebrosa viagem de Ulisses. Sobre os ombros dos sem-narinas pesa a responsabilidade da escolha adequada. Leitura é trabalho, é vida. Vivemos mesmo quando erramos. Quando é que não erramos? Erro é vida. O erro, não a ação prevista, leva a caminhos não trilhados. Essa é a lei do caos. Em lugar de coordenação e subordinação, instrumentos do pensamento lógico, recebemos pequenas unidades lapidadas, sombras. Com elas convivemos.
Negros revérberos no negro . Esta é a lei da caverna em que vivemos. Na caverna platônica, as sombras eram projetadas pelo sol, familiar a poucos, os iluminados. Finda a era dos iluminados, sombras reverberam sombras. Luz negra. Negra é a luz dos homens de bile negra, os melancólicos, mais adiante fala-se em SOL roxo. Sol roxo emite luz negra. Pólen no escuro ecoa em chuva de ouro. Como chuva de ouro, Zeus fecundou Dânae, aprisionada em câmara de bronze subterrânea. As sombras não desterram a vida. A vida se prolonga na morte, a morte ilumina a vida, na morte a vida se regenera. "Necromante" é mais comum que nigromante, o que adivinha evocando os espíritos. Nigromante é o poeta.
Espadas encerra a primeira galáxia. O termo tanto alude à espada com que Ulisses selecionava sombras ávidas de sangue quanto ao naipe de espadas, negro, prenúncio de acontecimentos funestos. Baralho é jogo. Cartas e dados caem ao acaso. A sombra de Mallarmé, poeta que ousou implodir o discurso lógico, ronda o fosso. Quem afirmou que o lance de dados jamais abolirá o acaso foi ele. Haroldo entrou no jogo dele.
O olho da mosca encabeça a página 69, olho da mosca varejeira, olho que procura a decomposição. Insaciável, a mosca não recusa fossos e não se detém em nenhum deles. As moscas se multiplicam sobre a decomposição. Belzebu, uma antiga divindade síria, significa etimologicamente senhor das moscas. Ele é o príncipe dos demônios. Desde Nietzsche sabemos que super-homem é aquele que, tomando plena consciência de suas fraquezas, encontrou-se consigo mesmo na morte, não a apocalíptica, mas a que se morre todos os dias.
O chumbo de agora contrasta com o cristal do paraíso. Simboliza a matéria enquanto impregnada de força espiritual e a possibilidade das transmutações de um corpo em outro. A alquimia viu no chumbo a base das transformações, água de todos os metais na opinião de Paracelso. Chumbo é a substância material do universo. Alquimista é o poeta.
Haroldo nos conduz às profundezas da paisagem infernal. Letes é o rio cujas águas apagam a memória dos que dela bebem. À beira dele crescem asfódelos (asphodelus ramosus), planta de folhas estreitas e de flores amarelas ou brancas semelhante ao lírio. Sendo perenes, os asfódelos lembram a vitória sobre a morte. Os poetas, conscientes do limite e sedentos de eternidade, freqüentam essas tétricas paragens. Haroldo tira os poetas do esquecimento. Sem o trabalho dele, alguns deles ainda viveriam na sombra. Não contente com a busca de informações entre os mortos à maneira de Ulisses, Haroldo mostra a eleitos o caminho da luz, devolvendo-os, mais exitoso do que Orfeu, ao congresso dos vivos. A descida leva ao núcleo da vida, o código nucleico, lugar em que está inscrito o programa que rege a vida em todas as suas ramificações. A vida transcorre como um jogo de cartas marcadas visto que os lances se dão dentro de parâmetros mensuráveis. Nessas regiões profundíssimas ouvem-se vozes farejando o fosso para virem à luz. Se ao beberem do Letes as recordações passadas esmaeceram, as iguarias do fosso refazem o que o Letes desfez.
Desde muito cedo foram aproximadas as imagens do leito de morte e do leito do amor. Entre putrefação, moscas varejeiras e morte, abre-se a página da estátua áurea, dois corpos fundidos em um só. Do chumbo da matéria informe o alquimista tira uma estátua de ouro, fonte da chuva de ouro vertida sobre o poema, lembrança da ejaculação de Zeus, mas, sobretudo, da glande de cristal. O ouro, que evoca o paraíso, penetra no reino dos mortos. O abraço do casal ocorre num espaço cósmico que vai do lençol ao tapete leitoso da via láctea. Sem ele, como se agrupariam estrelas em constelações? Eros já tinha essa função na Teogonia de Hesíodo. As crisálidas, que trazem ouro no nome, são o caminho que os lepidópteros atravessam para se tornarem borboletas. Concretização da glande de cristal, a crisálida promove a regeneração da vida. A rigidez cadavérica não é o fim. No leito da morte a vida se refaz. O crisólito, pedra preciosa de cor de ouro, vem semiologicamente das crisálidas. Branco é Blanco, alusão a Octavio Paz, o autor de Blanco, traduzido ao português por Haroldo em Transblanco. O tradutor é crisálida que faz o texto renascer em outra língua . Blanco é alvo, o alvo atingido. Branco (síntese de todas as cores) é alvo, a paz do orgasmo, paz nirvânica.
O lapso luciferino alude à Bíblia. O anjo da luz expulso de excelsas moradas cai no abismo. Lúcifer percorre o poema. Sai do paraíso e mergulha na sombra. Signância não é poema da redenção, é poema da queda. Quem era Lúcifer antes da queda? Vivendo na luz, ele se confundia com a luz. Lúcifer só aparece na queda quando, de luz que era, é degradado a portador de uma luz que não lhe pertence mais. Lúcifer se obscurece à medida que cai. Estilhaço luminoso da explosão primeira, Lúcifer cai num universo em queda. Lapso é também erro involuntário, erro de escrita. Perdido o mundo, idade paradisíaca em que a poesia brilhava no cristal, resta a poesia do lapso. Na época de sol roxo, lapso é poesia. Poeta é Lúcifer, tenebroso portador da luz. O índigo é um caso do azul? A dúvida levantada no paraíso é respondida no inferno: SOL roxo índigo. No azul e no sol opera a sombra.